quarta-feira, 30 de novembro de 2011

100% Paraíba

O craque Marcelinho Paraíba, um dos grandes responsáveis pela volta do Sport Clube Recife para a Elite do futebol brasileiro. Em entrevista ao GLOBOESPORTE.COM, fala das dificuldades no início de sua carreira, enaltece o seu amor a Paraíba e revela dificuldades dos nordestinos para ingressar em clubes do Sudeste e Sul do País.

Por falar na carreira, são vinte anos de futebol. Começou no Campinense, em Campina Grande, em 1991, quando tinha 17 anos. Fazendo uma retrospectiva, como você enxerga o jovem Marcelo dos Santos, no início dos anos noventa?
Vejo muito esforço, muita dedicação. Uma situação totalmente diferente da que vivo agora. Vim de uma família humilde, pobre e tinha dificuldade até para me alimentar. Morava perto do estádio Amigão e ia treinar a pé. Não tinha feijão, nem arroz na mesa e raramente comia carne. E se tivesse arroz, não tinha feijão. Era uma alimentação inadequada para um atleta. Passei muita dificuldade. Foi mais na raça e na força de vontade que eu comecei a jogar.
Você é filho do centroavante Pedro Cagula, autor do primeiro gol do estádio Amigão, e matador do time do Campinense na década de 70. Como foi a influência dele no seu início de carreira?
Meu pai, quando encerrou a carreira, foi treinador da categoria de base do Campinense e por influência dele entrei no clube. Comecei a jogar, a mostrar o meu valor e fiquei por lá. Subi para o júnior, mas comecei a participar do profissional para compor e fui ganhando espaço. Admirava muito o meia Henágio (ex-Flamengo e Sport). Ele me ajudou muito no toque de bola, em macetes para melhorar meu rendimento.
Como foi impacto do primeiro salário como jogador de futebol?
Foi um alívio quando comecei a ganhar dinheiro. No meu primeiro salário, comprei uma televisão. Depois, fui arrumando a casa da minha mãe, da minha família e comprei coisas pessoais. Até hoje os ajudo, mas não vem de agora, vem daquela época, desde o início.
Tive dificuldade por ser inexperiente e nordestino. Há 20 anos, os nordestinos sofriam uma barreira nos clubes do Sudeste e do Sul. Fiquei meio escanteado, quase não jogava. "
Marcelinho, sobre a passagem pelo Santos
Foi no São Paulo que você ganhou o apelido de Paraíba?
Sim, foi numa quartas de final do Brasileiro de 1999, quando fiz três gols em cima da Ponte Preta e viramos a partida para 4 a 3, no Morumbi. Num dos gols, levantei a camisa com os dizeres "100% Paraíba" como forma de homenagear meu estado. Muita gente tinha vergonha de se assumir paraibano. Nenhum jogador abria a boca para falar que era de uma Campina Grande, por exemplo. Depois desse gesto, apareceram vários Marcelos Paraíbas, Hulk da Paraíba, Nei Paraíba...Hoje em dia, as pessoas têm orgulho de ser paraibanos.
Na época, como foi a repercussão?
Para mim e para a Paraíba foi muito bom, principalmente para a imagem do estado, que começou a ser visto de outra forma. Artistas começaram a surgir, como o comediante Shaolin. Lógico que os talentos dessas pessoas fizeram a diferença, mas sei que o meu gesto os ajudou a derrubar preconceitos. Até hoje, sou respeitado por isso, com vários títulos de cidadão em muitas cidades paraibanas. Meus conterrâneos me elogiam. Sempre por onde eu ando, eu levo o nome da Paraíba comigo.